Nois é isso aí
e não é publi
Semana passada eu ouvi a última do Febem, o álbum Abaixo do Radar. Tem meia horinha, estou começando a gostar desse tipo de formato desde o Cores & Valores, do Racionais. Recomendo inclusive que ouçam as duas obras. No caso do Febem, conheçam a discografia dele (por que na minha cabeça, a do Racionais todo mundo já conhece). Eu adoro o fato do cara ter escolhido FEBEM pra nome artístico. Principalmente sendo um artista de São Paulo e por ele ter se tornado bem sucedido artisticamente.
Lá pela minha quinta série, no interior, febem era um apelido pejorativo que usavam pra falar de menores infratores. Na verdade, era usado pra personificar qualquer rebeldia que algum jovem cometesse. Eu ouvia isso das pessoas principalmente na escola. Era uma cidade conservadora do interior - pesquisem sobre coronelismo, sério. Podia ser uma advertência besta na escola, “meu filho não vai virar um febem’’, essas coisas. Não tinha Febem ou Fundação Casa na minha região, era como uma lenda urbana - uma personalidade maldita que você assume quando se torna adolescente. Ou você assume isso ou se torna algo que agrade a sociedade.
Parêntese: Agora, olhando pra trás, eu não escolhi um lado, mas isso era de mim mesmo. Eu sempre transitei entre os grupinhos das escolas que estudei. Era interessante perceber as bolhas e passear entre elas. Eu andava com os repetentes, com os nerds, com os crentes, os góticos, com os riquinhos, os muito pobres - e os febens. Não necessariamente eu tinha muitos amigos, importante observar.
Voltando à alcunha de febem, a imagem que a gente tinha disso era uma mistura de Datena esguelando na tv com qualquer coisa que a gente imaginasse do Carandiru ou qualquer cadeia. A gente passava por esse apavoro invariavelemte entre a quarta e sexta série. Talvez lá na minha cidade até hoje seja assim, mas com alguma reformulação. Pirassununga nunca foi de mudar muita coisa.
Por isso eu acho mágico o Felipe ter abraçado o nome FEBEM. Ele ressignificou um bicho papão que corria atrás da gente na adolescência. Ele ressiginificou tanto esse carimbo que a esocla estadual militarista coloca nos “fios desencapados’’ quanto o modus operandi imposto à periferia (esse aí é assunto pra outro texto). Tem que ter muita coragem pra fazer isso. Se chamar FEBEM, ter uma carreira sólida e reconhecida é peitar a indústria fonográfica, peitar a sociedade e principalemte a elite, afinal, tem dinheiro na conta.
Queria ter ouvido o Febem na minha quinta série.
No Abaixo do Radar ele fala sobre a dualidade do sucesso, a pressão de colocar dinheiro em casa, amor e saúde mental - sem perder o sarcasmo. O nome do trabalho me remete algo como passar batido na multidão, ser ou se sentir invisível.



